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8/11. Relé: funcionamento, tipos, parâmetros e como selecionar o componente certo (guia técnico completo)

  • Foto do escritor: Laís E. Chaves
    Laís E. Chaves
  • 12 de fev.
  • 8 min de leitura

Bem-vindo ao oitavo post da nossa série didática e ilustrada sobre componentes eletrônicos! Após explorarmos diodos, LEDs e transistores, avançamos agora para um componente que faz a ponte entre o mundo “de sinais” e o mundo “de potência”: o relé.


O relé é, essencialmente, um interruptor acionado eletricamente. Ele permite que um circuito de controle (baixa potência) comande outro circuito (média/alta potência), fornecendo isolação elétrica e segurança operacional, características críticas em automação industrial, automotivo, dispositivos médicos, áudio profissional, telecom, sistemas embarcados e eletrônica de potência.


Relé: funcionamento, tipos e como selecionar corretamente.
Relé: funcionamento, tipos e como selecionar corretamente.

Neste guia técnico completo e aplicado, você vai entender:


  • O princípio físico de funcionamento do relé (e por que ele ainda é tão usado);

  • Os principais tipos de relés e aplicações práticas;

  • Os parâmetros de datasheet que realmente importam (e os que mais causam erro em campo);

  • Como dimensionar e selecionar o relé correto para cada carga (resistiva, indutiva, capacitiva);

  • Boas práticas de acionamento, proteção, EMI/EMC e confiabilidade;

  • Um FAQ com 5 perguntas relevantes, respondidas de forma didática.


💡 TL;DR — resumo rápido


Relé é um interruptor acionado eletricamente. Ele permite controlar cargas com isolação entre controle e potência, usando contatos mecânicos (relé eletromecânico) ou semicondutores (SSR). Para escolher bem, não basta olhar “corrente nominal”: você precisa considerar tipo de carga, corrente de partida/inrush, tensão, AC/DC, vida elétrica, material de contato, isolação, tempo de comutação, temperatura e proteções (diodo flyback, snubber, varistor). O relé certo reduz falhas, retrabalho e problemas de EMI.


❓ Resposta direta (featured snippet)


O que é um relé e para que serve? Um relé é um componente eletromecânico ou eletrônico que funciona como um interruptor controlado por um sinal elétrico. Ele serve para acionar e desligar cargas (motores, resistências, lâmpadas, solenóides, fontes, etc.) usando um circuito de comando de baixa potência, com isolação elétrica entre comando e carga.


Relé: visão geral e por que ele é tão importante


Em aplicações industriais, é comum existir um controlador (CLP, microcontrolador, computador industrial, driver) que trabalha com sinais baixos (3,3 V / 5 V / 24 V com pouca corrente) e, ao mesmo tempo, precisa acionar cargas como:


  • motores, solenóides, válvulas

  • resistências de aquecimento

  • lâmpadas, sirenes, contatores

  • fontes, cargas AC, equipamentos externos


O relé resolve isso com duas vantagens fundamentais:


  1. Isolação galvânica (separação elétrica real entre comando e carga)

  2. Versatilidade de contato (NO/NC, SPST/SPDT/DPDT, múltiplos polos)


⚙️ Como o relé funciona (sem enrolação)


1) Relé eletromecânico (EMR): bobina + armadura + contatos


O relé eletromecânico é composto por:


  • Bobina: ao ser energizada, cria um campo magnético

  • Núcleo e armadura: movimento mecânico atraído pelo campo

  • Mola de retorno: define a posição de repouso

  • Contatos: abrem/fecham o circuito da carga


Estados típicos:


  • Desenergizado: contatos ficam na posição “normal” (NO aberto / NC fechado)

  • Energizado: a armadura move e os contatos comutam


Ponto crítico: a bobina pode ser AC ou DC, e isso muda completamente o comportamento (e as proteções).


2) Relé de estado sólido (SSR): semicondutor no lugar do contato


No SSR, não há contato mecânico: a comutação é feita por:


  • Triac / SCR (AC)

  • MOSFETs (DC ou AC específico)

  • Optoacopladores/driver interno para isolação


Vantagem: alta velocidade, sem desgaste por arco mecânico.

Atenção: SSR tem queda de tensão em condução, dissipa calor e pode ter corrente de fuga.


🔍 Tipos de relés e aplicações práticas


Tipos de Relé.
Tipos de Relé.

🔹 1) Relé eletromecânico (potência e sinal)


  • Uso: comutação geral de cargas

  • Aplicações: automação, painéis, eletrodomésticos, controle industrial

  • Ponto forte: contato “real” com baixa resistência quando novo


🔹 2) Relé Reed (reed relay)


  • Contato selado em cápsula de vidro (reed switch)

  • Uso: sinal, instrumentação, baixo ruído, boa repetibilidade

  • Aplicações: medição, testes, telecom, comutação de sinais sensíveis


🔹 3) Relé biestável (latching)


  • Mantém estado sem energia contínua (economia)

  • Uso: aplicações alimentadas por bateria, energia crítica

  • Aplicações: medição remota, sistemas embarcados, automação eficiente


🔹 4) Relé temporizado (time delay)


  • Comuta após tempo definido (on-delay/off-delay)

  • Aplicações: controle de partida, proteção, sequenciamento de processos


🔹 5) Relé de segurança


  • Projetado para falhas seguras (contatos guiados/monitorados)

  • Aplicações: máquinas industriais, paradas de emergência, normas de segurança funcional


🔹 6) SSR (AC/DC)


  • Uso: alta taxa de comutação, silêncio, alta vida útil mecânica (sem mecânica)

  • Aplicações: aquecimento, controle AC, comutação rápida, ambientes com vibração


🧠 O que mais derruba projetos com relés


A maioria das falhas em campo não é “relé ruim”. É dimensionamento errado ou falta de proteção.


Os erros mais comuns:


  • Dimensionar por corrente nominal e ignorar inrush

  • Comutar cargas indutivas sem proteção (arco + EMI + desgaste)

  • Usar relé AC em aplicação DC (ou vice-versa)

  • Ignorar derating por temperatura

  • Ignorar vida elétrica vs. vida mecânica

  • Layout ruim em PCB (isolação insuficiente, trilhas aquecendo)

  • Acionamento de bobina sem proteção (diodo/snubbers) causando ruído e reset


📊 Parâmetros de datasheet que você deve dominar


A) Parâmetros da bobina (coil)


  • Tensão nominal da bobina (Vcoil): 5 V, 12 V, 24 V etc.

  • Resistência da bobina (Rcoil) e corrente da bobinaAproximação (DC): Icoil ≈ Vcoil / Rcoil

  • Potência da bobina (Pcoil): impacto em consumo e aquecimento

  • Tensão de atuação (pick-up): mínima para comutar

  • Tensão de liberação (drop-out): abaixo disso ele desarma

  • Tipo de bobina: AC ou DC (muito importante)


B) Parâmetros dos contatos (contact)


  • Configuração: SPST, SPDT, DPDT… / NO / NC

  • Corrente e tensão máximas (sempre com ressalvas por tipo de carga)

  • Carga resistiva vs indutiva vs capacitiva

  • Material do contato: AgNi, AgSnO₂, AgCdO (histórico), etc.

  • Resistência de contato (importante em sinal/baixa corrente)

  • Tempo de operação e liberação (ms)

  • Bounce (rebote): pode gerar múltiplas comutações rápidas


C) Vida útil


  • Vida mecânica: ciclos sem carga (muito alta)

  • Vida elétrica: ciclos com carga real (muito menor)

    Projetos falham quando consideram apenas vida mecânica.


D) Isolação e segurança


  • Rigidez dielétrica (bobina-contato e entre contatos)

  • Creepage/clearance (distâncias em PCB e encapsulamento)

  • Certificações (quando aplicável): UL, IEC, etc.


✅ Como escolher o relé certo: checklist de engenharia


Passo 1 — Defina o tipo de carga


  • Resistiva: aquecedor, lâmpada incandescente (atenção ao inrush), resistência

  • Indutiva: motor, solenóide, contator, transformador

  • Capacitiva: fontes chaveadas, bancos de capacitores (alto pico de partida)

Para fontes e motores, o pico de corrente pode ser várias vezes a corrente nominal.

Passo 2 — Defina tensão e natureza da comutação


  • AC ou DC?

  • Qual a tensão máxima real (incluindo transientes)?

  • Qual a categoria de utilização (principalmente em AC)?


Passo 3 — Dimensione corrente com margem baseada no “pior caso”


  • Corrente nominal + inrush + travamento/partida (se existir)

  • Considere aquecimento e ventilação do painel/placa


Passo 4 — Escolha o tipo de relé adequado


  • EMR para isolação robusta e comutação geral

  • Reed para sinal

  • SSR para comutação rápida e silenciosa (considerar dissipação)

  • Safety relay quando há requisitos normativos de segurança


Passo 5 — Planeje proteção e EMI/EMC


  • Bobina DC: diodo flyback (ou diodo+zener para desligamento mais rápido)

  • Carga indutiva nos contatos: snubber RC, varistor (MOV), TVS (dependendo do caso)

  • Layout: trilhas de potência, distância de isolação, retorno de corrente, aterramento


🧮 Dimensionamento prático: exemplos aplicáveis


Exemplo A — Acionar um relé 12 V com microcontrolador (low-side)


Problema: MCU 3,3 V ou 5 V não fornece corrente suficiente para a bobina.

Solução recomendada: transistor/MOSFET canal N “logic-level” como driver.


Arquitetura:

  • MOSFET N em low-side (bobina no +12 V, MOSFET para o GND)

  • Diodo flyback em paralelo com a bobina (polarizado reverso em operação normal)

  • Resistor de gate (típico: 33–220 Ω) para reduzir ruído e controlar slew-rate

  • Pull-down no gate (típico: 47–220 kΩ) para garantir desligado no boot


Critérios de seleção do MOSFET:

  • VDS com margem (ex.: 30–60 V em sistemas de 12 V, dependendo de transientes)

  • ID com folga acima da corrente da bobina

  • RDS(on) baixo em VGS compatível com MCU (2,5 V / 3,3 V / 4,5 V)

Observação prática: diodo flyback protege o driver, mas pode aumentar o tempo de liberação do relé. Quando o “desligar rápido” é crítico, usa-se diodo+zener ou outras topologias.

Exemplo B — Comutar uma carga indutiva no contato (solenóide / contator)


Problema: ao abrir o contato, a energia indutiva gera arco e ruído.

Solução: aplicar proteção no lado da carga (não apenas na bobina do relé).


Opções típicas:

  • MOV/Varistor (AC): absorve surtos

  • Snubber RC (AC/DC): reduz dv/dt e arco

  • Diodo flyback (DC): eficiente, mas pode alterar dinâmica de desligamento


Resultado esperado: maior vida elétrica do relé e menor EMI.


🧩 Tabela comparativa (decisão rápida)

Tipo

Melhor para

Vantagens

Pontos de atenção

EMR (eletromecânico)

Potência geral

Isolação real, versátil, baixo R contato (novo)

Arco, desgaste, bounce, vida elétrica limitada

Reed

Sinal / instrumentação

Baixa resistência, contato selado, repetível

Limite de corrente/tensão, sensível a inrush

Latching

Baixo consumo

Mantém estado sem energia contínua

Controle mais complexo, atenção ao reset

SSR

Comutação rápida / silenciosa

Sem desgaste mecânico, alta velocidade

Dissipação, corrente de fuga, queda em condução


🧩 FAQ técnico (5 perguntas relevantes)


1) Posso usar “qualquer relé 10 A” para uma fonte chaveada de 10 A?


Não é recomendado. Fontes chaveadas e cargas com capacitores de entrada podem ter inrush alto no ligar, causando arco e degradação rápida dos contatos. O correto é verificar no datasheet a capacidade para cargas capacitivas e considerar técnicas como NTC, pré-carga ou relé apropriado.


2) Por que meu relé “cola” ou falha depois de um tempo?


As causas mais comuns são:

  • arco excessivo (carga indutiva sem proteção)

  • inrush acima do suportado

  • temperatura alta (derating ignorado)

  • contato trabalhando fora da especificação (AC vs DC)


3) Preciso sempre de diodo flyback na bobina?


Para bobina DC, sim, na maioria dos casos, principalmente se houver transistor/MOSFET. Sem flyback, o pico de tensão pode danificar o driver e gerar EMI. Em bobina AC, a proteção é diferente (não se usa diodo).


4) Relé eletromecânico ou SSR: qual escolher?


Depende do objetivo:

  • Se você precisa de isolação robusta e contato “real”, EMR é ótimo.

  • Se você precisa de alta velocidade, silêncio e alta vida mecânica, SSR pode ser melhor.Mas SSR exige análise de dissipação térmica, corrente de fuga e tipo de carga.


5) Por que relé em DC é mais crítico do que em AC?


Em DC, o arco elétrico é mais difícil de extinguir porque não há passagem por zero natural como no AC. Isso pode reduzir muito a vida elétrica se o relé não for adequado para comutação DC na tensão/corrente especificada.


🏭 Aplicações industriais reais (onde relé aparece de verdade)


  • Automação industrial: acionamento de cargas, intertravamentos, interfaces de I/O, comandos de máquinas

  • Automotivo: relés para cargas de potência, proteção e distribuição (com requisitos de vibração e temperatura)

  • Dispositivos médicos: isolamento e comutação confiável, muitas vezes com reed relays e requisitos de segurança

  • Eletroeletrônico: controle de fontes, cargas, seleção de rotas, comutação de sinais e potência

  • Áudio profissional: mute, chaveamento, proteção de alto-falantes, comutação silenciosa (relés de qualidade)


🚀 Conclusão


O relé continua essencial porque ele resolve um problema central da engenharia: controlar cargas com segurança, isolamento e robustez. Mas “colocar um relé” não é suficiente, a confiabilidade vem de selecionar corretamente para o tipo de carga, dimensionar considerando inrush e transientes, e aplicar as proteções certas para bobina e contatos.


Em aplicações industriais, um relé bem especificado reduz:


  • falhas em campo

  • retrabalho

  • ruído e resets por EMI

  • desgaste prematuro e custos de manutenção


Explore a Série Completa sobre Componentes Eletrônicos (11 posts)



Referências (base científica e técnica)


  • HOROWITZ, P.; HILL, W. The Art of Electronics. 3. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.

  • SEDRA, A. S.; SMITH, K. C. Microelectronic Circuits. 8. ed. Oxford University Press, 2019.

  • IEC. IEC 61810 — Electromechanical elementary relays (série).

  • IEC. IEC 60664 — Insulation coordination for equipment within low-voltage systems (creepage/clearance).

  • IPC. IPC standards relacionados a montagem, confiabilidade e projeto em eletrônica (conforme aplicável ao contexto do post).

  • Manuais e application notes de fabricantes (ex.: Omron, TE Connectivity, Panasonic) sobre seleção de relés, inrush, vida elétrica, proteção de contatos e bobina.



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